segunda-feira, 5 de setembro de 2016




O Peptídio primordial




As proteínas são polímeros de aminoácidos conectados através de ligações amida. No caso específico de ligações entre aminoácidos, são chamadas de ligações peptídicas. A reação poderia ser descrita como a reação entre o grupo NH2 de um aminoácido e o grupo COOH de outro aminoácido, liberando água, contudo, a reação não ocorre e essa limitação pode ser compreendida pela natureza química dos reagentes.







Os aminoácidos estão na forma de duplo íon (zwitterion) entre pH 3 e 10. Abaixo de pH 2 estão na forma positiva em que o grupo amônio e o COOH estão protonados, e acima de pH 12 estão na forma de NH2 e carboxilato.
Em nenhuma destas condições ocorre a condensação entre aminoácidos em bons rendimentos, porque a amina na forma de NH3+ não reage, e o ácido carboxílico na forma de COO- afasta qualquer grupo que reaja sobre o carbono do C=O.
Além das considerações sobre a reatividade química, a termodinâmica também não favorece a formação da ligação amida. A energia livre da síntese da ligação amida da formação da glicil-glicina é de 15 kJ/mol (3,5 kcal/mol). Ou seja, é uma reação endotérmica, cuja constante de equilíbrio é de 3.10-3, o que favorece claramente os aminoácidos livres em detrimento do peptídio. Em meio aquoso, o equilíbrio está deslocado para a formação dos aminoácidos livres, contudo em ambientes com pouca água, a hidrólise é lenta.
A reação requer a entrada de energia, que nos seres vivos vem do uso de moléculas com alta energia, como o ATP. A síntese de peptídios inicia pela ativação do grupo carboxi, através da fosforilação com ATP. Na sequência, uma fita de RNA transportador substitui o fosfato, formando um éster com a ribose.









O aminoácido ligado à fita de RNA transportador chega ao ribossomo, onde é transferido à crescente cadeia peptídica. A forma que a sequência de aminoácidos é sintetizada em um laboratório é semelhante à síntese no ribossomo. Desde Merrifield, laureado com Nobel de Química 1984, o principal método de síntese de proteínas ocorre em fase sólida, fixando o aminoácido de partida em um polímero.
A sequência de ativação segue através da adição de um novo aminoácido protegido, remoção do grupo protetor, uma nova ativação e adição de um novo aminoácido protegido, e assim por diante. O primeiro passo é a proteção do grupo NH2 do aminoácido para impedir a auto-reação após a ativação do grupo carboxi. Os grupos protetores diminuem a reatividade do nitrogênio como nucleófilo por efeitos estéreo (espacial) ou eletrônico. Um dos grupos protetores mais utilizado é o Fmoc (fluorenilmetiloxicarbonil), e a reação de proteção é mostrada a seguir.






O esquema abaixo mostra uma síntese de peptídios em fase sólida. A proteína sintetizada é liberada na última etapa.



Os estudos que foram feitos mostraram que em condições térmicas, que dirigiriam o equilíbrio para a síntese da amida pela remoção de água para a fase gasosa, foram sintetizados dipeptídios, tripeptídios em quantidades ínfimas, porém os produtos obtidos em maiores quantidades são as 2,4-dicetopiperazinas,i que são altamente estáveis a hidrólise e proteólise, o que descarta sua possível função no crescimento de cadeias peptídicas.ii Pelo contrário, sua síntese é indesejável em qualquer processo que envolva a síntese de peptídios. A reação é usualmente acompanhada de epimerização (inversão de configuração em torno do carbono assimétrico), quando são utilizados aminoácidos com estereoquímica definida.iii






Entretanto, a condensação entre glicina e ácido glutâmico forma o polímero poli-gli-glu de forma ordenada sobre óxido de alumínio em condições térmicas, e a regularidade do arranjo entre os aminoácidos é atribuída à formação da 2,4-dicetopiperazina entre glicina e ácido glutâmico.iv.
As dificuldades relacionadas à síntese dos peptídios pode ser comprovada nas quantidades relativas dos compostos obtidos pela condensação da glicina detectada nos meteoritos de Murchison e Yamato-791198.v As quantidades de glicilglicina e 2,4-dicetopiperazina foram de 4 e 23 pmol (10-12 mol)/g, respectivamente, em Murchison 11 e 18 pmol /g, respectivamente em Yamato. A concentração de glicil-glicina foi cerca de 3-4 vezes menor do que a glicina livre, e o tripeptídio não foi detectado, assim como outros aminoácidos não foram reportados.
A tentativa de obter peptídios a partir do aquecimento de aminoácidos com outros mineraisvi e argilasvii requer temperaturas altas e grandes concentrações de aminoácidos para obter rendimentos menores do que 5 %, e sempre com o predomínio da forma cíclica.
Ou seja, seria necessário que houvesse grande quantidade de aminoácidos à disposição para que uma pequena fração formasse um produto que não seria de utilidade para a construção de proteínas, como as dicetopiperazinas, ou seja, grandes superfícies cobertas de aminoácidos sob altas temperaturas.
Ainda assim, o crescimento da cadeia nessas condições tem-se mostrado impraticável, sendo que o comprimento máximo obtido tem sido de três aminoácidos, muito distante do comprimento das menores proteínas conhecidas.
A hipótese aceita é a condensação de aminoácidos no interior de argila. Até o momento, não existem dados que demonstrem uma eficiência catalítica importante para esses sistemas. Outra questão está relacionada com o ambiente em que teriam ocorrido os fenômenos pré-vida. A proteção dos raios ultravioleta de alta energia em uma atmosfera sem uma camada de ozônio requer uma cobertura, e por isso os mares são vistos como o ambiente mais propício. Não existem quaisquer evidências de aminoácidos livres no oceano, e para a reação de condensação seriam necessárias grandes concentrações de aminoácidos nos oceanos.
As questões científicas sobre esse tópico estão longe de serem respondidas, e são um convite para que pesquisadores engajados se disponham a resolvê-las.



iLangmuir.2004 Feb 3;20(3):914-23.Adsorption and thermal condensation mechanisms of amino acids on oxide supports. 1 Glycine on silica. Meng M,Stievano L,Lambert JF.
iiWang DX, Liang MT, Tian GJ, Lin H, Liu HQ. A facile pathway to synthesize diketopiperazine derivatives. Tetrahedron Letters. 2002, 43(5): 865-867.
iii Borthwick AD (May 2012). "2,5-Diketopiperazines: Synthesis, Reactions, Medicinal Chemistry, and Bioactive Natural Products".Chemical Reviews.112(7): 3641–3716.doi:10.1021/cr200398yPMID 22575049.
ivInfluence of aluminum oxide on the prebiotic thermal synthesis of Gly-Glu-(Gly-Glu)n polymer BioSystems 104 (2011) 118–126 Patricio Leyton∗, R. Antonio Zárate, Sandra Fuentes, Carolina Paipa, Juan S. Gómez-Jeria, Yessica Leyton.
vOrig Life Evol Biosph. 2002 Apr;32(2):165-79.
vi Adv. Space Res. Vol. 27, No. 2, pp. 225-230, 2001 V.A. Basiuk and J. Sainz-Rojas Catalysis of peptide formation by inorganic oxides: high efficiency of alumina under mild conditions on the Earth-like planets

viiJ Mol Evol (1997) 45:457–466 Silica, Alumina, and Clay-Catalyzed Alanine Peptide Bond Formation Juraj Bujda´k,1 Bernd M. Rode2   

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Síntese e degradação abiótica de açúcares

A explicação abiótica para a síntese dos açúcares é um desafio em particular, porque são moléculas pouco estáveis, com diversas reações de retrossíntese. A reação de formose, descoberta por Buttlerov tem sido apontada como o ponto de partida.i
A auto-condensação do formaldeído é lenta, e ainda não está claro qual o gatilho que dispara essa auto-condensação. A constante de equilíbrio para a dimerização do formaldeído para a síntese do glicolaldeído não é conhecida. Um cálculo grosseiro realizado por Weberii baseado somente em dados termodinâmicos, sugere em uma constante de equilíbrio de 40, contudo não leva em conta o mecanismo para a reação orgânica. Não existe qualquer indício sobre a viabilidade da reação, e esse pode ser um ponto de partida para uma investigação. Alguns pesquisadores afirmam que o glicolaldeído estava presentes já no início, citando sua presença no espaço.iii
Quando o glicolaldeído está disponível, a reação apresenta auto-catálise, ou seja, o produto catalisa a reação do reagente.
O formaldeído gera glicolaldeído (1), que reage com o formaldeído através de uma condensação aldólica, formando gliceraldeído (2), que pode isomerizar para di-idroxiacetona e tetroses, como a 2-cetotetrose, que pode dar uma retro-aldol, formando o glicolaldeído, o que dá uma característica de auto-catálise para a reação.






A descoberta que o RNA pode atuar como catalisador em algumas reações, levou a hipótese do “RNA world”, em que o RNA seria a primeira molécula da vida, combinando as funções de auto-replicação e catálise.
Essa ideia é ainda hoje muito citada, porém esbarra em um ponto crítico: a baixa estabilidade da ribose. A reação da formose produz diversas pentoses e hexoses, sem seletividade para a ribose, e além disse é pouco eficiente como rota sintética, operando em pH alcalinos e requer concentrações altas de formaldeído, uma condição realmente difícil de obter, especialmente considerando reações concorrentes, como a reação de Cannizzaro.
Os açúcares são pouco estáveis em soluções ácidas ou básicas, levando a diversas reações de eliminação e polimerização,iv mas mesmo em soluções neutras a ribose mostrou-se pouco estável e a instabilidade aumenta com a temperatura. Por exemplo, a meia vida da ribose a 100o C é de 73 min e 300 dias a 25o C em condições praticamente neutrasv e o pH de 8,2 do oceano atual aumentaria essa velocidade cerca de 50%.
Os experimentos sobre a estabilidade de açúcares levam a sérias dúvidas sobre a importância da glicólise como fonte de energia, dada a instabilidade dos açúcares, uma vez que estes não estariam disponíveis.






Contudo os dados de decomposição de açúcares no mesmo meio não aparecem nos livros sobre abiogênese.
Esta não é a única objeção séria sobre a formação de açúcares a partir do formaldeído. Medidas cinéticas indicam que a desproporcionação via Cannizzaro é mais rápida do que a reação via formose, a reação de Maillard entre açúcares e aminoácidos ocorre de forma irreversível nas mesmas condições, formando heterociclos como o furfural, e aldoses como a ribose e a glicose reagem com baixas concentrações de HCN (reação de Kiliani), resultando em ácidos carboxílicos de massa maior.
A reação de glicólise é a maior fonte de energia para os seres vivos, contudo a indisponibilidade de açúcares seria um maior impedimento para o surgimento desta etapa metabólica. A teoria do “RNA world” apresenta sérias dificuldades pela indisponibilidade de ribose para a formação de ribonucleosídios.

i Encyclopedia of Astrobiology pp 600-605Formose Reaction; Henderson, James (Jim)Cleaves II
iiWeber A Chemical Constraints governing the origin of metabolism: the thermodynamic landscape of carbon group transformations under mild aqueous conditions Orig. Life Evol. Biosph. 32:333-357
iiiHollis, J., Lovas, F., Jewell, P. (2000) Interstelar Glycolaldehyde: the first sugar. Astrophysic. J. 540: L107-L110
iv 1. Kruger, K., Grabowski, P. J., Zaug, A. J., Sands, J., Gottschling, D. E. & Cech, T. R. (1982) Cell 31, 147-157. 2. Guerrier-Takada, C., Gardiner, K., Marsh, T., Pace, N. & Altman, S. (1983) Cell 35, 849-857. 3. Woese, C. R. (1967) The Genetic Code (Harper & Row, New York), pp. 179-195. 4. Crick, F. H. C. (1968) J. Mol. Biol. 38, 367-379. 5. Orgel, L. E. (1968) J. Mol. Biol. 38, 381-393. 6. White, H. B., III (1976) J. Mol. Evol. 7, 101-104. 7. Visser, C. M. & Kellogg, R. M. (1978) J. Mol. Evol. 11, 163-169. 8. Gilbert, W. (1986) Nature (London) 319, 618. 9. Sharp, P. A. (1985) Cell 42, 397-400. 10. Decker, P., Schweer, H. & Pohlmann, R. (1982) J. Chromatogr. 244, 281-291. 11. Shapiro, R. (1988) Origin Life Evol. Biosphere 18, 71-85. 12. Gabel, N. W. & Ponnamperuma, C. (1967) Nature (London) 216, 453-455. 13. Reid, C. & Orgel, L. E. (1967) Nature (London) 216, 455. 14. Fuller, W. D.' Sanchez, R. A. & Orgel, L. E. (1972) J. Mol. Bio. 67, 25-33. 15. Fuller, W. D., Sanchez, R. A. & Orgel, L. E. (1972) J. Mol. Evol. 1, 249-257. 16. Joyce, G. F., Schwartz, A. W., Miller, S. L. & Orgel, L. E. (1987) Proc. Natl. Acad. Sci. USA 84, 4398-4402. 17. Evans, W. L. (1942) Chem. Rev. 31, 537-560. 18. Khym, J. X., Doherty, D. G. & Cohn, W. E. (1954)J. Am. Chem. Soc. 76, 5523-5530. 19. Isbell, H. S., Frush, H. L., Wade, C. W. R. & Hunter, C. E. (1969) Carbohydr. Res. 9, 163-175. 20. Pigman, W. & Anet, E. F. L. J. (1972) in The Carbohydrates: Chemistry and Biochemistry, eds. Pigman, W. & Horton, D. (Academic, New York), 2nd Ed., Vol. 1A, pp. 165-194. 21. El Khadem, H. S., Ennifar, S. & Isbell, H. S. (1987) Carbohydr. Res. 169, 13-21. 22. Borenfreund, E. & Dische, Z. (1957) Biochim. Biophys. Acta 25, 215-216. 23. Mopper, K., Dawson, R., Liebezeit, G. & Ittekkot, V. (1980) J. Mar. Chem. 10, 55-66.

vProc. Natl. Acad. Sci. USA Vol. 92, pp. 8158-8160, August 1995 Chemistry Rates of decomposition of ribose and other sugars: Implications for chemical evolution (RNA world/pre-RNA world/ribose stability) ROSA LARRALDE*, MICHAEL P. ROBERTSONt, AND STANLEY L. MILLER